quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cinderela às avessas - Capítulo 11: Só lhe resta esperar o resgate

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Só lhe resta esperar o resgate

Há dias ela procurava Carmem sem sucesso algum. Onde aquela criatura tinha se enfiado? Para dificultar mais ainda, ninguém ali a conhecia. Será que todo mundo perdeu a memória e esqueceu dela? Por que somente ela ainda se lembrava?

Como não tinha nenhuma foto, Cascuda pediu a Marina que fizesse um retrato falado e saiu perguntando aqui e ali sem sucesso. Ela só conseguiu alguma pista quando foi falar com Aninha.

- Eu lembro dessa moça. Ela esteve naquela agência procurando emprego. Coitada, ela não parecia nada bem.
- Acha que ela conseguiu alguma coisa?
- Eu conheço o pessoal que trabalha ali, de repente eles podem nos informar se ela conseguiu trabalho e onde.

Chegando na agência, Cascuda teve que esperar até que Aninha conversasse com seus conhecidos. Minutos depois, sua amiga voltou com um papelzinho na mão.

- Menina, que sorte! Eles sabem onde ela está!
- Sério? Onde?
- Arrumaram um emprego para ela na mansão dos Aguiar que fica lá no bairro das Pitangueiras.
- Então é por isso que eu não a achei em lugar nenhum!
- Ela é sua amiga? Engraçado que eu nunca a vi antes.
- Bem... é uma amiga mesmo e tô preocupada com ela.

Cascuda saiu dali feliz e satisfeita por ter descoberto o paradeiro da Carmem, embora não conseguisse acreditar que ela tinha arrumado um trabalho de empregada doméstica. E justo na mansão onde seu primo trabalhava? Que mundo pequeno aquele!

“Hum... se é mesmo verdade que ela ficou sem casa, então precisou arrumar um emprego pra viver. Até que ela não é tão burra assim! Tomara que ela ainda esteja trabalhando ali.”

Ela conhecia Carmem o suficiente para saber que aquilo não ia dar certo. Além de não agüentar trabalho pesado, ela tinha um gênio terrível e não aceitava seguir ordens. Ainda assim não deixava de ser uma esperança de encontrá-la.

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Após muito esfregar, Carmem contemplou o seu serviço. Todo o chão da sala estava limpo e brilhando. Ela teve que se ajoelhar e limpar cada quadrado do piso de granito até ver seu reflexo nele.

- Ah, que beleza! Finalmente eu terminei!

A porta de entrada se abriu e sua patroa entrou deixando um pequeno rastro de lama pelo caminho.

- Esse passeio ao ar puro foi uma beleza! Faz tão bem a minha pele!

Carmem assistiu tudo com a boca aberta e os olhos arregalados. Após dez segundos de choque, ela respirou fundo e recomeçou tudo apesar de seus braços estarem em estado de miséria por causa de tanto esforço. Só no fim da manhã ela pode concluir todo o serviço, bem a tempo da hora do almoço quando ela tinha que ajudar Marlene na cozinha e servir a mesa dos patrões.

A rotina era basicamente a mesma, embora Carmem ainda não tivesse acostumado. E nem queria porque ainda tinha esperanças de que seus pais fossem buscá-la a qualquer momento. Era uma montanha-russa. Havia momentos de depressão, onde ela achava que ia morrer ali esquecida por todos. Depois tentava se animar dizendo a si mesma que aquela situação não era definitiva. Depois ela entrava em depressão novamente e tudo se repetia.

- Pára de sonhar e vá servir a mesa. – Marlene falou tirando-a dos seus pensamentos. – Eles estão esperando.
- Tá bom.

Daquela vez ela fez tudo direito, não dirigindo uma única palavra a ninguém. Era assim que o serviço devia ser feito.

- Então eles estão mesmo interessados?
- Muito, querida! Eles pretendem fazer grandes doações, estou falando de milhões de reais.

Entre uma viagem e outra, Carmem ia pegando pedaços da conversa. Era meio irônico aqueles dois trabalharem com caridade e tratarem os empregados daquela forma.

- Depois do almoço, se arrume e fique bem bonita porque vamos a inauguração daquela creche.
- Creche? Aquele lugar cheio de crianças ranhentas?
- Isso mesmo. Agüente firme, meu bem! Prometo que valerá a pena!

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Cascuda olhava o interior da propriedade pelas grades do portão. Quem podia acreditar que Carmem estava mesmo trabalhando ali? Será que estava dando conta do serviço? Mais cedo, antes do almoço, ela tinha falado com Rafael ao telefone e explicou a situação, descrevendo a pessoa que procurava.

- O nome dela é Carmem. É loira, cabelão cacheado, olhos azuis e muito fresquinha.
- Caramba, é ela sim! Ela veio trabalhar aqui no fim do mês passado.
- Foi mais ou menos nesse dia que ela sumiu aqui do bairro! Ai, Rafa, tem jeito de eu falar com ela ainda hoje? É importante!
- Bem... os patrões vão sair depois do almoço. Antes de levá-los eu te deixo entrar, mas você tem que ir embora no máximo as três e meia porque nós voltamos lá pelas quatro. Senão pode dar rolo.
- Pode deixar!

Quando chegou perto da mansão, ela deu um toque para seu primo que abriu o portão para que ela entrasse.

- E aí, cadê ela?
- Deve estar na cozinha lavando a louça do almoço. Se não estiver, fale com Cassandra ou Marlene para chamá-la. Fica esperando no quartinho dos fundos por uns dez minutos. Até lá eu já levei os patrões e você pode falar com ela.
- Tá bom!

Ela fez conforme o pedido e quando completou os dez minutos, foi até a cozinha e bateu na porta levemente.

Carmem largou o que estava fazendo para ver quem era e levou um grande susto ao se deparar com a Cascuda. O susto foi recíproco e ela mal podia acreditar que aquela patricinha fresca e mimada estava trabalhando como empregada doméstica. E lavando panelas? Usando uniforme? Com os cabelos presos daquela forma? Sem maquiagem e suas roupas de grife?

- Carmem do céu! O que aconteceu com você?
- Ué, tá me conhecendo agora? – a outra falou com cinismo.
- Claro que te conheço, criatura! Quero saber por que você tá aqui!
- E eu tive escolha? Era isso ou ficar na rua!

Ela explicou a Cascuda tudo o que tinha lhe acontecido, a história completa.

- Quer dizer que seus pais não te reconheceram?
- Fingem que não me reconheceram, você quer dizer! E a turma entrou no jogo deles! Tentei pedir ajuda e todo mundo fingiu que não me conhecia! Fala aí, quanto meus pais pagaram pra eles entrarem nesse joguinho?

A outra balançou a cabeça negativamente e respondeu.

- Não é joguinho. Ninguém lembra mesmo de você.
- Ah, tá! Então meu pai te pagou pra você vir aqui falar isso, é?
- Deixa de ser tonta! Estou falando que ninguém no bairro te conhece mais! Acha mesmo que seu pai ia subornar tanta gente assim? E tem mais!
- Mais o quê?
- Seu facebook desapareceu, assim como o twitter!
- Alguém apagou.
- Não, Carmem. Tem alguma coisa acontecendo. Olha essa foto aqui. Você lembra? É daquele coral onde a gente cantava.
- Eu não devia estar na foto?
- Devia, mas não está.

Ela olhou rosto a rosto e viu que realmente não estava na foto. O mesmo aconteceu com outras que Cascuda foi lhe mostrando, lhe deixando muito preocupada.

- Eu olhei várias fotos no meu álbum, na internet, em tudo quanto é lugar e você não aparece em nenhuma delas! Também não aparece no blog da Denise em lugar algum! Você sumiu!
- Eu não sumi não, ainda tô aqui!
- É, mas pra todos os efeitos, é como se nunca tivesse existido!
- Então como você ainda lembra de mim?
- Nem faço idéia, até preferia não lembrar. Mas o fato é que eu sou a única que te reconhece agora, porque todo o resto da turma te esqueceu! Até liguei lá pra sua casa várias vezes e eles falaram a mesma coisa: você não mora lá e ninguém te conhece!

Um prato caiu no chão quebrando em vários pedaços.

- E-então é verdade? Aquela coisa da estrela é verdade mesmo? Eu nunca nasci dos meus pais? Nunca conheci a turma? E ninguém nunca me conheceu? Ai meu santo! É verdade mesmo! O que eu faço agora?

Diante de tantas evidências, não teve como negar e finalmente ela se deu conta de que Creuzodete falou a verdade. A moça chorava em desespero ao ver todas as suas esperanças caírem por terra. Seus pais não iam lhe tirar dali porque para eles, ela nunca existiu. Agora, ela estava condenada a viver daquele jeito pelo resto da vida.

- Carmem, respira fundo e tenta se acalmar!
- Acalmar de que jeito? Eu não tenho mais nada e sou obrigada a viver nessa casa como empregada, tomando banho com sabão de lavar roupa e usando guardanapo como papel higiênico! Nem escovar os dentes eu tô podendo porque não tenho escova e ninguém me empresta nada!

Cascuda afastou um pouco, pois o hálito da amiga estava mesmo ruim.

- Espera, tem que ter uma explicação pra isso!
- Tem sim! Eu fiz um pedido idiota pra uma estrela idiota e ele realizou! Agora eu fiquei... fiquei... – ela teve que fazer um esforço muito grande até finalmente conseguir pronunciar a terrível palavra que agora definia sua nova condição. – pobre! Fiquei pobre! Que horror, dá pra imaginar castigo pior do que esse?
- Esse troço de estrela não existe, tem que ter outra explicação!
- Então tá, pode falar que eu tô ouvindo!
- Preciso de tempo e vou ver se investigo isso a fundo.

Ela logo ficou desconfiada.

- Vai me ajudar? Por que faria isso?
- Porque quero saber o que aconteceu. Que tipo de coisa teria alterado a realidade dessa forma? Isso pode ser muito perigoso!
- Ah, sei. Obrigada por se preocupar com meu bem estar, fiquei comovida!

As duas se encararam com a hostilidade de sempre e Cascuda viu que apesar de tudo, Carmem continuava a mesma criatura esnobe e arrogante. Bem... talvez não fosse tão ruim ela sofrer um pouco para aprender a ter mais humildade. Ainda assim ela pretendia investigar aquele caso.

- Você disse que a Creuzodete sabe o que aconteceu. Vou ver se passo lá na barraca dela pra tirar umas dúvidas.
- Será que ela vai te responder?
- Não vou dar sossego enquanto ela não me falar a verdade. Enquanto isso, vai agüentando as pontas você não tem pra onde ir.
- Ai, que pesadelo! Olha só as condições em que eu trabalho!
- Eu tô vendo é um monte de prato e copo quebrado, isso sim! Ó, toma cuidado, senão vão descontar tudo no seu salário, viu?
- Ai, credo! Então eu vou é ficar devendo pra eles!

Cascuda consultou o relógio e viu que ainda tinha algum tempo, por isso ajudou Carmem a terminar aquele serviço lhe mostrando como fazia. Ela também lhe mostrou como limpar as mesas da cozinha e o chão para que ela não tivesse mais problemas.

- Bom, o que eu podia fazer por você já fiz. Trate logo de aprender a fazer o serviço direito porque você só tem esse emprego agora.
- Snif... tá bom... e descobre logo o que aconteceu, tá? Eu não sei por quanto tempo vou agüentar tudo isso!

Ela foi embora dali sem ser vista e pensando no quanto aquela garota era arrogante. Nem pedir por favor ela era capaz!

Um comentário:

  1. Ih, será que a Carmem vai parar nesse emprego? Talvez... Estou mais curioso para saber como a Cascuda sabe e lembra de tudo... Será que a Creuzodete planejou tudo?

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